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| Memorial do Convento | José Saramago – Opinião Literária

Memorial do Convento

Esta foi a minha segunda escolha para o projeto ‘Ler os Nossos’. Este é um projeto que está a decorrer durante este mês de Julho e foi criado pela A Mulher que Ama Livros. O primeiro livro que li foi A Queda dum Anjo, de Camilo Castelo Branco, e podem ler mais sobre a minha experiência com este livro nesta publicação. Este não foi o meu primeiro contacto com o Memorial do Convento, mas senti que precisava de mais uma oportunidade com esta obra.

O autor

José Saramago é um escritor que dispensa apresentações. Ao longo da sua carreira, escreveu diversos livros e recebeu muitos prémios. O mais conhecido foi, talvez, o Prémio Nobel, atribuído no ano de 1998. Criador de uma escrita própria, Saramago abordou, nas suas obras, temas que, por vezes, lançaram a polémica no público. Igual a si próprio, sempre escreveu sem filtros e sem medos e viu o seu talento reconhecido internacionalmente. Alguns dos seus escritos tiveram inclusive adaptações para o cinema.

Sinopse

“Era uma vez um rei que fez promessas de levantar um convento em Mafra… Era uma vez a gente que construiu esse convento… Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes… Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido”. Tudo, “era uma vez…”.

Texto disponível na página da Porto Editora (neste link).

 

A minha história com esta obra

A primeira vez que tive o Memorial do Convento na mão, lembro-me de ter olhado para a capa e ter pensar “E agora?!”. Era aluna do 12º ano e tinha ouvido horrores sobre a obra. Ainda não tinha encontrado uma única pessoa que me tivesse dito que gostava do livro e todos faziam questão de dizer o quão difícil era de perceber a sua escrita. Como qualquer outro aluno desse ano, só imaginava como seria a avaliação de um texto impossível de perceber.

Assim que comecei a leitura, percebi que afinal não ia ser assim tão complicado de se ler, nem de entender. Nesta altura já era completamente viciada em livros e já os devorava da primeira à última página. O Memorial do Convento não se revelou diferente. No final, acabei a leitura, fiz a avaliações e não me saí muito mal… Costumo dizer, a quem me diz que não consegue ler um livro de Saramago, que ele é um daqueles muito típicos casos de “ou se ama, ou se odeia”. Não é um autor de meios termos…

No entanto, e embora eu tenha gostado da obra, acabei por nunca mais ler nada deste autor. Não existe um motivo exato para isto, mas a verdade é que entretanto se passaram quase dez anos e pareceu-me o momento certo para colocar um fim neste hiato.

Opinião

Aliei o projeto Ler os Nossos, ao projeto Ler Saramago e decidi reatar e minha relação com o autor pelo mesmo ponto onde parei: o Memorial do Convento. Agora sem a pressão das avaliações, dos trabalhos para apresentar ou dos exames nacionais no fim do ano.

Desta vez, senti que a leitura foi muito mais fluída do que da primeira vez que o li e, mais uma vez, apaixonei-me pelo casal Baltasar e Blimunda.

A Promessa

Na história, temos um rei que promete erguer um convento caso seja abençoado com um filho. E eis que chega o momento de cumprir a sua promessa. Assim nasce o Convento de Mafra, fruto de uma promessa, num acto desesperado de conseguir um herdeiro para o trono. Construído pelas mãos do povo, este convento guarda nas suas paredes muito sangue, suor e lágrimas das gentes que o ergueram para fazer cumprir a promessa que El-Rei fez.

O Amor

Depois existe um Baltasar e uma Blimunda, marcados pela vida, cada um à sua maneira, mas que na sua maior pureza, se apaixonam e vivem o seu amor. Adoro que eles tenham vivido independentes das leis da Igreja e da sociedade, simplesmente sabendo que eram almas gémeas. Não se casaram, nem precisaram de o fazer para demonstrar um amor sincero e verdadeiro um pelo outro. Sem questões e sem complicações… Mostraram que o mais importante não se prende com os aspetos mundanos dos relacionamentos, mas com a união espiritual.

A Loucura

Conhecemos ainda o Padre Bartolomeu. Ele é um sonhador. Louco, mas sonhador. Ele luta para realizar o seu sonho. Representa, no seu fundo, aquele que todos gostaríamos de ser. Pelo menos em parte. Na sua loucura, ele encontrou a força para perseguir o seu sonho.

Foi apelidado de louco porque tinha um sonho que perseguiu… Não precisaremos todos nós também de ter uma dose de loucura para seguirmos os nossos sonhos? Afinal, seguir-los implica sair da nossa zona de conforto e deixar o que é seguro. Se isso não é ter em nós mesmos uma dose de loucura, não sei o que será…

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Apesar de ter gostado muito deste livro e de o recomendar vivamente, reconheço que a sua leitura não é simples. Não é o livro ideal para alguém que não está habituado a ler e talvez seja esse o motivo para tantas pessoas se assustarem só de ouvir o seu nome.

Memorial do Convento é um livro que fez o seu caminho diretamente até ao meu coração a cada nova página que li. No final, ele decidiu lá ficar como um dos meus favoritos de sempre. Tem tanto nele para dar a quem o ler… Tem um amor lindo, sincero e puro, tem amizade, tem loucura na sua forma mais ingénua!

Não me arrependo de o ter relido pelo simples prazer de ler e algo me diz que esta não foi a última vez que o fiz…

 

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